a vida é uma dor de estômago

meu olho esquerdo

Esse é um texto muito fraco e muito pequeno sobre dois assuntos que aparentemente não têm nada a ver um com o outro e que talvez não interessem a vocês. Desculpem-me.

Há alguns anos descobri que tenho uma doença chata nas córneas: o ceratocone. É um saco. De acordo com Paulo Ferrara, médico brasileiro e especialista na matéria, o ceratocone é "uma doença da córnea de etiologia discutida, hereditária, que acomete o adolescente ou adulto jovem e se caracteriza por um afinamento e deformação progressiva desta membrana, levando ao aparecimento de miopia e elevado grau de astigmatismo irregular e acentuada baixa da acuidade visual". É um saco. Basicamente eu não posso olhar para nada que emita ou reflita luz (tudo) sem que fantasmas apareçam em volta daquilo que estou olhando. É um saco. É um saco porque vejo a lua e umas quatro cópias borradas sobrepostas. É um saco para ler legendas no cinema. É um saco — e cheguei a essa conclusão há pouco tempo — para alguém que almeja comprar um telescópio.

Mas não é fim do mundo, pois meu ceratocone é bem mais acentuado no olho direito. Esse fato sempre me leva a brincar de tapar uma ou outra córnea só para enxergar o mundo de dois jeitos. Um jeito bom e um jeito ruim?

Não creio.

Desde pequeno enfiaram em minha cabeça que o mundo é dividido basicamente em duas coisas. Parece que não podemos funcionar de outra maneira. Há o bem e o mal. Há sempre um pick your side, um Israel ou Palestina, um azul ou rosa, um Dilma ou Aécio. Ultimamente as dicotomias têm sido um incômodo para mim. Cansei desse nós e eles. Não tenho certeza se em algum momento realmente acreditei que exista um nós e um eles. Soa muito fácil transformar a lógica dual em ferramenta para sabe-se lá o quê e acabar ferrando com a vida de alguém. E ferrar com a vida de alguém simplesmente não faz sentido.

Esse foi um texto muito fraco e muito pequeno sobre dois assuntos que não têm nada a ver um com o outro e que talvez não interessem a vocês. Desculpem-me.

The book of love is long and boring, no one can lift the damn thing

Hoje meu amor está triste. E isso é ruim.

Antes de começar a escrever o que vocês estão prestes a ler — e ela, principalmente —, corri ao Google para caçar um daqueles sites onde colocam palavras bizarras em fundos tratados no Photoshop, para logo em seguida darem a definição das palavras bizarras. Eu queria encontrar o nome do medo de quem tem medo de vomitar. Encontrei-o (claro) na Wikipédia: emetofobia.  E a sábia enciclopédia livre sugere que, para evitar os vômitos, podemos não comer coisas estragadas, coisas fora do prazo ou beber leite azedo. Impressionantes e úteis instruções.

Exagero meu. Não sou emetofóbico, mas ela sabe muito bem o quanto tenho ânsias quando vejo declarações públicas de amor. Aquelas fotos muito felizes e muitas exclamações e muitas coisas e muitos comentários e muitos “casal lindo” que me fazem repetir internamente o mantra:  ainda-bem-que-ela-me-mataria-se-eu-fizesse-a-mesma-coisa. Porque, vejam, há algo de plástico demais em pintar o mundo do amor como um filme do Freddie Prinze Jr. Amar não é como estar em um filme da Sessão da Tarde mal dublado e com o Freddie Prinze Jr.

Ou talvez seja. Ou devesse ser. Ou eu sou incapaz, defeituoso. Não saberia ser Freddie. Não saberia brincar de namorados que saem e postam fotos das comidas românticas. Aí utilizo de todo um mecanismo complexo de defesa que culmina em uma falsa ânsia de vômito quando vejo o amor escorrendo aos litros em cada rede social criada pelo ser humano. Isso não pode ser amor, amor é outra coisa. Risos.

Talvez todos tenhamos muito conhecimento sobre o que é e o que não é amor, talvez ele seja o tipo de coisa infinita e impossível de se apreender por completo. Mas não é sobre isso que quero falar, porque hoje meu amor está triste. Isso é ruim. Daí pensei que, para mim, seria pior se o que eu escrevesse soasse como algo público sobre o meu amor e vomitasse. Fim da divagação.

Sempre disse a ela — e a todos quando tenho oportunidade — que não entendo qual é o ponto de se estar com alguém quando o tal alguém é tratado constantemente como um inimigo em potencial. Um alguém que demanda vigilância constante, pois sem vigia o alguém pode a qualquer momento pisar na bola e te dar aquele soco bem dado no estômago. Um alguém que obrigatoriamente aquilo, ou aquilo e aquilo, já que é um alguém de alguém e alguéns fazem essas coisas. Não entendo qual é o ponto de se estar com alguém quando a relação é pautada por um eterno quê de chantagens e proibições e obrigações.

E hoje meu amor está triste. Isso é ruim.

Eu não tenho uma receita para que a tristeza suma. Nem sei se tenho a responsabilidade de resgatá-la das garras desse monstro opaco. Eu já arranquei e dei flores — que ela guarda até hoje — para tentar resolver tristezas passadas. Ganhei sorrisos em troca. Já fiz poeminhas e escrevi outras coisas. Ganhei sorrisos e lágrimas em troca. Boas lágrimas. Já pedi desculpas quando incomodei, já fui embora quando foi preciso. Já cheguei e fui a conchinha de fora e a de dentro. Ganhei agradecimentos e sorrisos em troca. Sinto que em todas as vezes que assumi a postura de herói para tentar vencer o monstro opaco só recebi coisas em troca. E a tristeza sempre volta. Opaca, macilenta. Ela nunca aparece em fotos e redes sociais. É engraçado. Não espero que as pessoas comecem a postar fotos com os seguintes dizeres: “Eu e o meu amor de conchinha, porque eu estava triste e ele veio ficar comigo”, ou “eu rindo de uma piada do meu amorzinho depois de chorar e não saber mais o que é lágrima e o que é muco. #narizentupido #amordeverdade”. Mas, poxa. Isso existe.

O que fazer? Cantar Barão Vermelho? Dizer que tudo o que ofereço é o meu calor e o meu endereço? Buscar inspiração nos comentários da música no Youtube? Relembrar das minúcias de tanto tempo juntos? Não seria muita pretensão? Como disse, não há receita.

Hoje resolvi escrever isso para dizer tanto para ela quanto para vocês que amar não é para amadores — risos, risos, risos. Apostei comigo mesmo que não falaria isso. Escrevo tal texto para — tentar ao menos — mostrar que o mais importante é o tempo todo tentarmos enaltecer e lapidar uma escolha que não deve nunca ser baseada no confronto, mas sim na liberdade e na responsabilidade de cuidar do outro no limite do cuidado consigo mesmo. Eu, por exemplo, não mereço agradecimentos por acreditar que ela, o meu amor, é uma pessoa melhor do que ela mesma acha que é. Isso é simplesmente um fato que não vou cansar de repetir, que não tem nada a ver com posta obrigação de namorado. Tem mais a ver com eu gostar de vê-la dormir, ou espirrar. Amar a mera ação de amar o meu amor.

Bem, isso acabou sendo algo bem público sobre o meu amor por ela. E acabei não vomitando. Então, duas coisas. Uma para vocês e uma para ela.

A vocês: continuem amando absurdos, porque só assim talvez eu aprenda mais com vocês e todos com todo mundo sobre essa little crazy thing called love.

E a você: é bom que saiba que mesmo estando triste não deixa de ser todo o branco dos meus olhos. E que colo é algo que se deita, não que se pede.

P.S.: Não me mate. Nada e Phelpinha precisam tomar banho e não sabem fazer isso sozinhos.

P.P.S.: Não conferi uma linha sequer desse texto

Brazuca é um nome muito feio para uma bola

Quando criança eu quis ser três coisas: o Homem-Aranha, um cavaleiro de Atena e Zinédine Zidane. Não ao mesmo tempo, claro. Se bem que — pensando agora na concomitância absurda — eu seria muito, mas muito legal se fosse as três coisas ao mesmo tempo.

Em clima de copa, ignoremos as duas primeiras vontades e falemos do gênio francês.

Posso e irei elencar alguns argumentos plausíveis para alguém querer ser Zizou: ele ganhou uma copa em seu país vencendo o Brasil na final. Ele deu uma espécie de aula magna de futebol em 2006 quando eliminou o Brasil da copa da Alemanha. Ele foi três vezes eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA. Ele é embaixador da ONU. Ele faz pelada solidária de fim de ano junto com o Ronaldo e uma pá de outras lendas menos graduadas do futebol. Ele é ambidestro. Ele é careca e tem um nome que soa muito bem. Zidane, num resumo simplista, é uma daquelas pessoas que deus criou dando risadinhas internas e dizendo para si mesmo que tinha se superado. Como quando fez Michael Jordan, José Saramago e Hayao Miyazaki.

Mas Zinédine Zidane é humano. Tão humano que deu uma cabeçada em Materazzi em sua última copa, foi expulso e viu a França perder a disputa de pênaltis — e a taça — dos vestiários. Não há justificativa para a cabeçada poderosa, mas o zagueiro italiano aparentemente teria xingado a irmã do camisa 10 franco-argelino. Sim, argelino. Fui descobrir que Zizou tem ascendência argelina de maneira tardia, todavia a tempo de dizerem na escola que eu tinha cara de argelino e ficar feliz com a súbita proximidade étnica com meu ídolo.

E só para reforçar a sopa étnica que é a França, o atual camisa 10 dos Bleus, Karim Benzema, é outro descendente de argelinos. Um tanto polêmico nos últimos anos — festas loucas, suposto sexo com uma menor —, Benzema chamou a minha atenção pelo protagonismo em campo durante essa copa e, principalmente, por não cantar a Marselhesa antes dos jogos. Por quê? Um protesto firme contra o fantasma xenófobo que assombra a França ultimamente.

Às armas, cidadãos!/Formai vossos batalhões!/Marchemos, marchemos!/Que um sangue impuro/banhe o nosso solo!

Hinos fazendo ode à guerra e cantando espadas e borrifos sanguinolentos são muito comuns. A Marselhesa não foge muito disso — Revolução Francesa, guilhotinas e tals. Mas parece que o sangue impuro por lá agora faz referência aos imigrantes e seus filhos. Li nas internets que Jean Marie Le Pen — um político francês e bem radical quando o assunto é gente de fora querendo entrar em seu país — declarou que “não franceses” não deviam ser convocados para representar a França. “Não franceses” como Benzema ou Evra. Li que em 1998 ele, que já concorreu várias vezes à presidência, ficou de raivinha porque a seleção francesa campeã era simplesmente o reflexo de um país multicultural: negros, árabes e brancos comendo a bola. Zidane, Thuram, Karembeu, Patrick Vieira. Se os apelos de Le Pen fossem atendidos, hoje brigaríamos pelo heptacampeonato. Palmas a Karim Benzema.

Outra polêmica (posso chamar de polêmica se fizeram vista grossa disso ao vivo?) envolvendo hinos: brasileiros vaiando chilenos que entoavam à capela a canção oficial de seu país. E olha que o hino chileno nem é sangrento. De onde aqueles torcedores tiraram que apenas os brasileiros podem exceder o antigo protocolo da FIFA e continuar cantando depois que o som mecânico se cala? Digo protocolo antigo pois claramente o novo é esperar que façam exatamente isso. E que chorem. As vaias seriam simples burrice? Pura falta de educação? Efeito de turba? Ciúme ubuesco? Ignorando as vaias antes do apito inicial, o ex-jogador Casagrande, ao comentar a vitória brasileira, disse que merecíamos ter levado a melhor sobre os chilenos, já que um povo que sofre tanto, que passou por um longo período ditatorial, merece sim ser campeão em sua própria casa. Obviamente o comentarista da Rede Globo não foi apresentado ao general Pinochet. Naquelas vaias havia muito de Le Pen.

Argentinos há tempos dizem que não sabemos torcer. Dizem que nós, brasileiros, parecemos crianças birrentas e mimadas quando vamos aos estádios. Ficamos eufóricos quando Neymar tem seus lampejos em um jogo quase ganho, mas ficamos assustados e mudos aos 43’ do segundo tempo de uma partida que não sai do zero a zero. Os Hermanos, por sua vez, têm várias músicas — e copiamos algumas —, enquanto insistimos no samba enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro de 1993 e suas variantes.

Mas vejam: não estou dizendo que franceses ou argentinos ou chilenos são melhores do que brasileiros por conta disso. Não há um povo melhor do que o outro. Le Pen quebra as próprias pernas ao dizer que o inferno são os argelinos — e turcos, e marroquinos e guianenses. Nós quebramos as próprias pernas ao cair na bobagem recorrente do complexo de vira-latas. Sempre dizendo que só temos bom futebol para oferecer e que se nem isso fizermos direito, nossa, o que vão pensar da gente lá fora? Sempre falando que vamos com certeza passar vergonha em qualquer empreitada. Sempre reforçando que homens brasileiros não prestam mesmo e que todo político brasileiro é corrupto, então podemos mandar nossa presidente tomar no olho do rabo em todos os jogos da copa porque sim. É bem vira-latas achar que vaiar o símbolo nacional alheio está tudo bem. Não, não está. É para esse umbigo que temos que olhar e tentar evoluir.

Falam muito sobre uma final entre Brasil e Argentina. A final das finais dentro da copa das copas. Meus ouvidos estão cansados de ouvir que não há problema se o papa é argentino, porque deus é brasileiro e que por isso com certeza ganharíamos — apesar de vira-latas. Se esse deus brasileiro é o mesmo que criou Saramago e Zidane eu não sei. Mas sei que devemos sufocar a ideia de que só a ele devemos respeito e começar a prestar contas aos outros seres humanos, a sermos mais éticos e fraternais.

Um franco-argelino muito polêmico se recusa a cantar a Marselhesa antes dos jogos por não compactuar com ideias como as de Jean Marie Le Pen. O outro enfiou o topo do crânio com toda a força no peito de um italiano sob os olhares de milhões de pessoas e, algum tempo depois, declarou que se arrependia por saber ser um exemplo principalmente para crianças e jovens de todo o mundo. São humanos e, apesar dos erros, ambos usam o futebol como meio de propagação de boas ideias e comportamentos. Esqueçamos a copa como nosso falso momento de brilhar sozinhos e relembremos que o esporte é o instrumento de congregação humana mais poderoso que existe. Chega de vaias aos outros e a nós mesmos.

P.S.: Zidane foi/é melhor do que Pelé.

P.P.S.: Ainda quero ser o Homem-Aranha.

Ainda Australopithecus

Lembro-me de uma professora de Biologia dizendo que o futuro da humanidade é pardo. Lembro-me também da velocidade do meu raciocínio — logo após a fala dela — que colocou um ganês sorridente de mãos dadas com uma branquela da Noruega, ambos em uma espécie de sala infinita onde eu pude traçar toda a descendência dos dois, enorme, até um moleque pardo e barrigudinho. Para ser mais preciso: criei uma árvore genealógica composta por pessoas nuas em uma sala infinita depois da afirmação da professora. Não sei se é uma previsão científica ou se ela só constatou isso dentro de um ônibus, num desses achismos nossos de cada dia, mas vi certa lógica naquilo tudo.

Lembro-me da minha última professora de Português dizendo que o primeiro cara que associou a beleza de uma flor à beleza de uma mulher foi um gênio, e o segundo foi um copiador safado. Lembro-me também da vergonha que senti por ser um copiador safado e tentei imaginar quantas vezes tinha dito/escrito aquilo e em que posição eu estava depois do primeiro Homo sapiens a fazer a comparação. Descobri um tempo depois que Salvador Dalí foi quem disse essa coisa da beleza e da flor e da mulher, mas tinha algo a ver com bochechas rosadas. E, olhem só, o primeiro cara que associou um negro a um macaco em minha frente se tornou um pedantezinho de merda que falava sobre surrealismo e Paris de um jeito que até o Dalí pediria arrego. O racista não gostava de Português e a professora de Biologia, a da predição parda, não gostava muito dele.

Lembro-me da primeira vez que vi a reprodução de um Australopithecus africanus: um hominídeo de pelos acobreados, bípede e com uma cara de bobo. A legenda da imagem dizia que ele não tinha mais do que um metro e vinte centímetros de altura e que o cérebro era ridículo se comparado ao nosso. Lembro-me de tentar imitar aquela expressão idiota, ficar feliz por ter um cérebro melhor que o dele e de não saber como sabiam a cor dos pelos — já que eu também não sabia como sabiam a cor da pele dos dinossauros. O livro onde achei o Australopithecus dizia que eles não eram muito espertos. Desse jeito mesmo: eles não eram muito espertos.

Lembro-me de assistir várias vezes a um vídeo dos Jogos Olímpicos de 1968 na Cidade do México e de dois caras levantando punhos cerrados e calçando luvas negras no pódio. Lembro-me também do vídeo de Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de 1936 vencendo os 100 metros rasos na Berlim de Hitler — se o Führer saiu do estádio para não cumprimentar o atleta negro ou não saiu, bem, quem tem link no verbete ‘Holocausto’ da Wikipédia não é Owens.

Eu não assisti ao jogo ontem entre Real Garcilaso e Cruzeiro, porque, honestamente — toda soberba será castigada — imaginei que meu time passaria fácil pelos peruanos. Ah, o futebol, sempre sendo futebol. Mas tenho internet em casa. Lembro-me que hoje pela manhã levei a mão à boca várias vezes — mentira, que absurdo, que desumano, que horror — e que com certeza alcancei com perfeição a face idiota do Australopithecus que tentei copiar há alguns anos. Lembro-me de pensar que o pior momento da vida futebolística do Tinga foi ter sido expulso por simulação em 2005 naquele fatídico Corinthians e Internacional, campeão e vice daquele ano, depois de sofrer um pênalti não marcado pelo Márcio Rezende de Freitas. Final antecipada, confronto direto e tals. Mas não. Ele teria que ir ao Peru e sofrer com torcedores imitando macacos toda vez que tocava na bola.

Lembro-me de ir trabalhar com as imagens na retina. Lembro-me também de perguntar para ninguém em minha cabeça: por que o capitão do time peruano não pediu para o árbitro parar o jogo? Ele poderia ter feito isso e abraçado o Tinga e chamado todos os outros jogadores para um abraço coletivo. Aí os reservas também sairiam dos bancos, com massagistas e preparadores e tudo, aí os torcedores brasileiros e peruanos e humanos também pulariam os alambrados e correriam para um abraçasso coletivo. Aí nas arquibancadas só sobraria o resto, a vergonha. Aí o vídeo seria extremamente virulento e não teria como cancelarem a partida e dariam os três pontos para cada time e problema é da Conmebol, pois seria a vitória das vitórias humanas e do esporte e Nelson Mandela seria pintado em todas as bandeiras do Cruzeiro para todo o sempre e ganharíamos a Copa Libertadores da América embalados pelo espírito do Madiba. Mas ninguém respondeu de volta em minha cabeça.

Lembro-me da minha primeira professora de Artes e do dia em que ela perguntou sobre qual era a nossa cor favorita e que faríamos um desenho usando o lápis da tal cor. Não tinha lápis azul para todo mundo — eu ainda gostava só de azul e creio que muito por isso sou cruzeirense — e acabei chateado. Lembro-me que o primeiro cara que associou um negro a um macaco em minha frente gostava de marrom e desenhou um monte de merda. Literalmente. Lembro-me também que a professora, percebendo meu desânimo e falta de lápis, estendeu o preto para mim e disse: fica com esse, é o mais especial, porque se você começar a colorir uma cor sobre a outra, todas as cores uma sobre as outras, a cor que você vai conseguir será essa, a negra. Sorri naquele dia e sorrio agora ao lembrar disso, porque é mais bonito pensar que todos juntos, ganeses e noruegueses, brasileiros e peruanos, todos juntos e misturados não somos pardos, mas negros.

O que é bonito está logo ali, em Júpiter

Primeiro incômodo: o sol. Porque sentar do lado direito do ônibus deveria ser a estratégia perfeita para evitar os raios solares. Até então era, mas hoje não foi. Bizarro. A explicação talvez esteja no horário, pois embarquei uns dez minutos atrasado. Sempre achei errado relacionar o verbo embarcar a qualquer meio de transporte que não toque a água. E acabei não cumprimentando meu motorista favorito. Esse seria o segundo incômodo, no entanto não será. Não quero parecer um velho cheio de manias antes dos trinta anos de idade e, óbvio, indignação pela mudança de rotinas é um clichezão atribuído a velhos cheios de manias.

Segundo incômodo: o livro. Eu estava lendo o discurso de Orhan Pamuk, escritor turco, enunciado em sei lá que cidade da Alemanha (isso aqui é preguiça de ir até a mochila, pegar o livro, encontrar a página correta e ter certeza da cidade). Ele tinha ganhado um prêmio e tudo, muito merecido por sinal. Ontem, inclusive, eu lia o primeiro discurso, do Pamuk também, proferido quando ele recebeu o Nobel de Literatura em 2006. Quase chorei ao final, porque, cara, eu amo redenção. Redenção é tipo minha morfina (já tentei emplacar essa expressão no ensino médio e ela não pegou). Mas o incômodo, o segundo incômodo. O livreto é composto por apenas três discursos do Pamuk. Amanhã lerei o derradeiro e fiquei com receio de agora ser uma pessoa viciada em ler discursos, o mesmo receio que tive numa terça-feira ociosa quando li uns três (cinco) discursos de Malcom X e Martin Luther King. E não tenho mais livros assim.

Terceiro incômodo: o menino. Já acumulava dois incômodos, um combo chato. Aí entrou esse menino e a mulher que aparentemente era sua mãe, mas poderia muito bem ser uma daquelas tias fãs de New Kids On The Block, que vêm de outra cidade e saem com o sobrinho quando não têm nada para fazer nas férias de verão. Sempre há esse tipo de menino (e de tias, e as bandas mudam, claro). O moleque passou pela roleta e falava alto, só que o problema não é falar alto, já que muita gente faz isso em um ônibus. O problema é falar alto para a tia que ainda está na roleta, mas sabendo que está falando para todo mundo ouvir enquanto finge que não sabe que as pessoas sabem que ele está falando para todo mundo ouvir enquanto fala com a tia, ou mãe. Tanto faz. Gostei mais dela como alguém cantando Step by Step em 1991. Aí o moleque, ainda fingindo um diálogo com a tia, — e foi quando virou esse tipo de menino — começou a soltar coisas como "eu tenho um computador com infinitos gigas", "porque os efeitos especias d’O Hobbit humilham" e "hoje a lua vai estar com oitenta e oito por cento do seu brilho". Esse tipo de menino que gosta de ajeitar os óculos mesmo que estejam grudados na porcaria da sobrancelha, achando que computadores e informações técnicas sobre as coisas, lidas em portais de notícias superficiais, transforma-os magicamente em cientistas e em caras mais legais que os outros. Logo, esse tipo de menino, soberbo gratuito, é mais chato do que aqueles moleques que são escolhidos primeiro no futebol e no basquete, ou em qualquer outra coisa nas aulas de educação física. Ele devia ter uns doze anos e tenho certeza (não) que nem olhou para o céu hoje à noite e achou um saco a lua sempre avacalhar pessoas que querem ver Júpiter a olho nu.

A coisa não homem

Isso aqui vai começar de um jeito nada a ver.

Tenho uma palavra favorita: Nenúfar. É boa de falar, é boa de escrever. Tente. Posso esperar. Aliás, tente depois. Leia o texto primeiro e tente depois. Eu, por exemplo, destro até com a canhota, sei que já escrevi nenúfar mais do que uma vez com a mão retardada. Tente, mas depois. É uma palavra tão boa, mas tão boa, que mesmo ter um significado meio bunda dá a ela um charme a mais para ser a palavra favorita de alguém.

O problema é que, para cada coisa que as pessoas amam, conseguem odiar umas oitenta e nove. Fácil assim. Pelo menos eu sou assim. Diverti-me marcando nenúfar em paredes da escola — com a mão esquerda, vejam só —, mas sinto os ossos liquefeitos quando escuto balada (pior de todas), velcro, facul ou chuleta. E olha que facul está mais para absurdo do que para palavra. A expressão “estou saindo da facul” só me faz pensar que você não deveria ter entrado ali, pois parece ser um lugar horrendo e fétido. Só não é mais fétido do que esse maldito estrangeirismo que é o tal do trollar. Trollei fulano, fui trollado por sicrano e lá se vai meu fêmur derretido pelo ralo. Maldita palavra, maldito Richard Dawkins e seus memes. Maldita — ah, lá se vai meu outro fêmur — modinha do mindfuck.

Outro dia pipocou em meu Facebook um pobre-diabo pretensioso. Vai saber como funciona a rede social, porque de vez em sempre brotam situações como a que vou apresentar. O dito coitado surgiu e descreveu aquilo que classificou como “o maior mindfuck que você terá em toda a sua vida”.

Confesso: parei para ler. Só que esse tipo de tropeço é vital para o bom andamento das coisas, já que força a criação daquelas notas mentais evolutivas — não entrar em apostas que envolvam língua, eletricidade e/ou pimenta, não perder apostas, não assistir ao programa do João Kléber, não clicar em qualquer coisa só porque sua mãe compartilhou. Friso: são notas mentais evolutivas. Elas são extremamente necessárias para o bom andamento dessa aventura chamada vida. Questão de pura e simples homeostase. Mas eis, mais ou menos, o que parei para ler:

“Você está aí feliz com a sua namorada, noiva, esposa, ficante ou o escambau. Ela é bonitinha, cheirosa e diz que te ama. Mas, na próxima vez que vocês se encontrarem, um pensamento surgirá em sua cabeça: ‘ei, ela não era virgem quando nos conhecemos. Se ela não era mais virgem, quer dizer que já havia transado com outro homem antes de mim’. As meninas estão cada vez mais saidinhas hoje em dia, estão começando cada vez mais cedo, então você fará as contas para saber para quantos caras ela já deu, quantos paus ela já chupou e, pior, quantos eram maiores do que o seu. É, meu amigo. Esse será o maior mindfuck que você terá em toda a sua vida. De nada. Passe para frente e estrague o dia de outro homem.”

Ou algo assim. Não tão bem escrito, mas algo assim. Espero que agora as coisas comecem a fazer sentido.

Esse texto — o meu, não o do pobre-diabo — poderia se chamar Mulher que não dá voa.

E eu nunca vi mulher voando. Ninguém precisa fazer muito esforço para chegar a essa conclusão, afinal de contas somos sete vírgula cento e quarenta e um bilhões de pessoas no mundo. Dizer que essa massa humana toda foi gerada in vitro ou por brotamento é como dizer que, sei lá, insira aqui qualquer asneira que já ajuda. Tem muita gente fazendo demasiado esforço para não falar ou pensar ou cogitar, deus nos livre e guarde, que mulheres fazem sexo. E que, virgem santíssima, elas fazem e gozam. Opa. Gostam. Um lapsus linguae deveras comum, você já deve ter percebido. É como se o fato de não falar ou pensar ou cogitar alguma coisa automaticamente fizesse com que a tal coisa não existisse.

O controle sobre a sexualidade feminina tem inúmeros exemplos que são socos no coração. Há sempre algum tipo de dicotomia: limpa/suja, mulher para casar/puta, vadia/santa, mulher da vida/mulher da minha vida. Há uma enormidade cansativa de dicotomias e todas, de alguma forma, vinculam a sexualidade feminina a algo deplorável, inaceitável, inconcebível. Porque, claro, concebível foi Maria conceber Jesus Cristo sem um pingo de esperma divino, pois sexo, deus nos livre e guarde, nem com o todo-poderoso. A coisa é tão tensa, mas tão tensa, que cheguei a ouvir um cara dizer que sentia vergonha ao sair com a mãe quando ela estava grávida. Aquele umbigo saltado no barrigão de sua progenitora, na cabeça do cara, era estampar o selo da péssima qualidade feminina. Era ela berrando para todos que tinha feito sexo com alguém. Era ela — palavras dele — desonrando o bom nome da família.

Honra, oras. A honra que poderia ser lavada a sangue impunemente há alguns anos caso alguma mulher caminhasse fora da linha. E por linha entenda-se cumprir todas as regras comportamentais ditadas às mulheres pelos homens. Porque veja: a honra é masculina. Se a mulher é infiel, morre. Se expressa seus pensamentos, morre. Se quiser explorar a sua sexualidade, morre. Honra masculina. Tá. Só mais uma das tatuagens que nós homens ainda queimamos em cada mulher que existe.

 Esse texto deveria se chamar Todas as mulheres têm tatuagens invisíveis.

Mas que todo mundo sabe muito bem quais são.

Lembro-me d’O cemitério de Praga, de Umberto Eco, e das referências aos Protocolos dos Sábios de Sião. Líderes Judeus se reunindo em um cemitério abandonado em Praga, conspirando para dominarem o planeta, fazendo planos para controlar a economia, as artes, os meios de comunicação. Tudo para conseguir o controle total da humanidade. Lembro-me do livro porque é assim que imagino as coisas quando aplicativos feito o Lulu e o Tubby aparecem:

"Uma sala parcamente iluminada. Não sei onde, não sei quando. Talvez em todo lugar, talvez o tempo todo. O único ponto de luz revela um pequeno grupo de homens, desses sempre atentos à manutenção da heterossexualidade alheia, debruçados, ombro a ombro, sobre um grande pedaço de papel em uma mesa. Quem chega mais perto — só homens heterossexuais podem — percebe que estão confabulando e apontando. Medem, retocam. Os ânimos estão exaltados. No papel há um tipo de mulher vitruviana desenhada e nela estão imprimindo as tatuagens invisíveis. Marcam as pernas, a virilhas e os seios. Discutem. Puxam colchetes e setas. Colocam instruções sobre as nádegas e a cor da pele. E sobre os cabelos. Todos os cabelos. Há unanimidade sobre os pelos — quanto menos, melhor. Indicam o tamanho de saias e profundidade de decotes. Tudo naquele desenho que faria Da Vinci sofrer. Os homens riem e alguns até babam. Divertem-se com esse poder de julgar concedido por vai saber quem.”

É uma alegoria que uso, ok, mas a reunião aos moldes do cemitério secreto em Praga não é tão absurda. Mulheres são tratadas como pedaços de carne, são massacradas aos milhares pelos garranchos e apontamentos nas mulheres vitruvianas de cada mesa de boteco. Mesas que, apesar de gênese heterossexual e masculina, conseguem amplo apoio de indivíduos que não deveriam compô-las. Mas é aí que está. Uma das principais ideias dos sábios sionistas lá do cemitério, sedentos pelo controle, era causar o caos, confundir. Transformar aliados em inimigos. E é desnecessário ler Foucault de cabo a rabo para saber que nessa lógica de tatuagens invisíveis há uma relação de poder nojenta.

Esse texto deveria se chamar O clube do Bolinha tem meninas demais.

Os modelinhos de homens e mulheres são criados por uma sociedade machista. Ponto. A rua é o lugar do homem, a casa é o lugar da mulher. O dinheiro é coisa do homem, a servidão é a sina feminina. O complexo cabe ao homem, a futilidade rosa é assunto das meninas. No sexo quem atua é o homem — lembre-se da virgem santíssima —, a mulher é só um instrumento necessário. Oras, sexo, sexo, sexo. Tudo conflui para o sexo. Sim, pois os rabiscos na mulher vitruviana são bastante precisos ao dizer que:

“… damas de verdade seguem à risca todos os nossos apontamentos, tornando-se modelos de apreciação e deleite sexual masculino, mas ai daquelas que usarem tamanha libido em benefício próprio. Desviantes. Putas. Bruxas. Putas. Sujas. Baixas. Putas.”

E desde cedo começam a vender os rabiscos.

Dia 19 de abril de 1996. Dia do índio. 3ª série do ensino fundamental. Estávamos todos ansiosos, pois as aulas tinham sido suspensas para alguma apresentação. Foi uma lástima não sairmos da sala, era sempre bom sair da sala de aula. Pelo menos a professora não estava lá. A supervisora — a mesma que no ano anterior conversara comigo sobre como é errado espalhar por aí como são feitos os cachorrinhos — estava na porta tentando nos conter. Passados alguns minutos ela chama alguém para entrar: nossa professora fantasiada de comanche. Só faltaram a pele de búfalo e o rifle. Ridícula. Tudo a ver (não) com a história que contaria logo em seguida.

Cheia de trejeitos e entonações bizarras, ela começou a falar sobre Naiá, uma índia, lá na Amazônia, que buscou incessantemente se encontrar com Jaci, a lua. Naiá escutou dos pajés que de vez em quando a lua se escondia atrás dos morros para brincar com as virgens mais belas da tribo. Naiá queria porque queria brincar também, pois a virgem preferida, diziam, era escolhida por Jaci para se transformar em uma estrela no céu. A jovem índia, de tão obcecada, morreu afogada quando se jogou em um lago, imaginando que o reflexo da lua na superfície era a própria Jaci vindo ao seu encontro. Mas, meninas — lembro-me perfeitamente da professora dizendo —, Jaci ficou comovida com a atitude de Naiá e a transformou em uma belíssima flor, uma estrela diferente: a vitória-régia.

De lá para cá eu já escutei incontáveis historinhas parecidas. Todas envolvendo alguma sorte de sacrifício feminino para que a mulher seja permitida em algum lugar, consiga atingir um objetivo ou que mereça determinado homem. Tudo passando pelo crivo dicotômico do sexual. De lá para cá eu vi meninas comprarem versões da mulher vitruviana e entenderem que é proibido sentar de perna aberta, porque aí você será uma pecinha que sobe de nível no jogo machista. É uma merda ser mulher, porque a mulher virgem é a única mulher possível no imaginário corrente. E essa porcaria é vendida como sendo normal, é comprada por homens que desejam a manutenção desse normal e — por incrível que pareça —, por mulheres, aos montes, que encaram como normal serem julgadas de maneira diferente pelo mesmo tipo de comportamento dos homens. Pior: julgam todas as outras que não se encaixam no normal-passivão-uma-dama-não-comenta. Logo, no contexto, homens não precisam de um aplicativo para ranquear mulheres. O mundo machista já é um grande aplicativo e ele roda no maior sistema operacional de todos: a vida. Mas só por ser o vigente não significa que seja o melhor aplicativo. A dama de verdade, a mulher vitruviana rabiscada, está em todo lugar. Mas por que tanto abalo sísmico quando algo coloca em xeque esse mundo dito normal?

Voltemos ao cara que tinha vergonha da mãe grávida e ao meu ódio por palavras. O rapaz me contou certa vez uma coisa que gostava de fazer com os amigos quando — clavícula esquerda, um beijo, adeus — saía para a balada. Criavam uma disputa: o ritual do oi-tudo-bem-posso-te-conhecer-três-beijinhos-você-é-linda-fica-comigo era seguido e o primeiro que conseguisse oscular cinco garotas sagrava-se campeão. O rapaz declarou que, para ganhar, em certas ocasiões, precisou de um pouco de força no braço esquerdo para prender a menina, pois, de acordo com as regras da partida, você tinha que erguer um braço para o alto — gesto da vitória — e indicar com os dedos o número da menina em questão. Sim, um hadaka-jime, uma gravata, um mata-leão na garota.

Esse texto deveria se chamar A coisa não homem.

Tanto o pobre-diabo do mindfuck (acabo de perder uma tíbia) quanto o rapaz que tinha vergonha da mãe: eles fazem parte de um exército desesperado. Estão ambos desesperados, clamando por pessoas que concordem com sua hegemonia heterossexual:

“Por favor, concorde comigo, eu sou macho, não sou? Concorde comigo, sua puta. Eu sou macho, não sou? Você está querendo, não está, sua puta? Eu sou macho, não sou? Eu sou um ser poderoso, claro que você quer. O poder transborda e não há nada que eu possa fazer. Eu não me aguento, não me controlo e por isso te estupro. Olho e consigo enxergar suas tatuagens invisíveis e te estupro. Se sua saia é curta demais, eu te estupro. Se sua saia é longa demais, eu te estupro, porque isso é só charme para provar da minha pica das galáxias, não é? Sua puta. Eu sou macho, não sou? Sou tão poderoso que te mato, que cago regras sobre seu corpo em nome de deus — porque sou quase um, não sou? —, em nome da moral cristã, em meu nome, sua puta.”

Esse é um trecho bem possível do pensamento de um dos rapazes que participam da brincadeira do mata-leão. Respingos da tristeza recalcada do machismo: estão todos desesperados por não saberem ao certo o que é um homem, no entanto o show tem que continuar. O exército consegue definir bem o que são mulheres, sejam damas ou putas, elas são mulheres. São submissas, pouca coisa, burras, objetos, limitadas, fracas e dependentes. Mas ao topar com a definição do masculino, só sabem dizer o que não é um homem: Mulheres, por deus, não são homens. Gays não são homens. Quem não bebe não é homem. Torcer pelo outro time é não ser homem. Não saber dirigir é não ser homem. Ser brocha é não ser homem. Ser traído é não ser homem. Sentir dor é não ser homem. Tudo o que remete ao inferno dos afeminados, das feias, das gordas, das lésbicas é não ser homem. Um exército que perdeu a noção do humano.

Concluo que não existem homens no imaginário machista. Existem, sim, esses desesperados correndo atrás de um totem impossível, grande, veiúdo e incansável. Arremedos de corpos, arrogantes e hipócritas, covardes e mentirosos. Coitados que dominam a partir da misoginia, que disseminam a ideia de que homens pensam em sexo a cada dois minutos e estão sempre preparados, mas que mulheres não pensam e não fazem. Soldados desesperados e tristes de um exército que rabisca mulheres para retroalimentarem um desprezo sem sentido. Desesperados e tristes, cheios de fobia da coisa não homem, mas não têm um isso de humanidade para compreender que não são melhores que ninguém. Não veem que ser homem significa mais do que provar a todo instante e a todo custo que você consegue ter ereções.

Esse texto deveria se chamar Galáxias não têm pênis ou Os homens que não amavam as mulheres, mas já usaram isso em outro canto.

Enfim.

Misóginos, machistas e machões. Assassinos e estupradores. Vocês que não enxergam problemas em piadas, porém enxergam as tatuagens invisíveis, que abrem a porta e pagam a conta porque sim. Vocês, caga-regras que não limpam a bunda, que acham que feministas são mal-comidas, recalcadas. Vocês que vivem a confusão de sexualizar ao extremo o corpo feminino e ao mesmo tempo conseguem escorraçá-lo por isso, que morrem de medo de não serem homens:

Vocês é que são a coisa não homem.

P.S.: Nenúfar. Se você chegou até aqui e ainda não recorreu ao Google para saber qual o significado da minha palavra favorita, toma: Nenúfares são plantas da família das ninfeáceas, plantinhas aquáticas tipo a vitória-régia. Ah, a ironia, essa deusa.

grifo 17

— Minha mãe disse-me que os mortos não cantam — contou Will.

— Minha ama de leite disse a mesma coisa, Will — respondeu Royce. — Nunca acredite em nada do que ouvir junto à mama de uma mulher. Há coisas a aprender mesmo com os mortos — sua voz gerou ecos, alta demais na penumbra da floresta.

g.r.r. martin, As Crônicas de Gelo e Fogo: A Guerra dos Tronos

grifo 16

— É claro, é muito provável, meus amigos — disse ele devagar —, é provável que estejamos indo ao encontro de nosso destino: a última marcha dos ents. Mas se ficássemos em casa sem fazer nada o destino nos encontraria de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde. Esse pensamento vem crescendo em nossos corações, e é por isso que estamos marchando agora. Não foi uma decisão apressada. Agora, pelo menos, a última marcha dos ents será digna de uma canção. É — suspirou ele —, podemos ajudar os outros povos antes de desaparecermos. Mesmo assim, eu iria gostar de ver as canções sobre as entesposas se tornando realidade. Iria gostar muito de rever Fimbrethil. Mas, meus amigos, as canções são como as árvores: só dão frutos no tempo próprio, e à sua maneira: e às vezes murcham antes da hora.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: As duas torres

as borboletas, os tijolos e qualquer coisa

- … mas qual é o grande problema? Conversar consigo mesmo não é um grande problema. Seria um grande problema se você tivesse a estúpida certeza de que está conversando com outra pessoa quando na verdade está é conversando apenas com você mesmo. Fato.

- E se eu me sentisse incomodado com isso?

- Com "se eu me sentisse" você está tentando dizer que se incomoda?

- Não necessariamente.

- Então você se incomoda.

- Não necessariamente. Você se incomodaria?

- Eu não me incomodo.

- Ok. Digamos que eu me incomode. E daí?

- Oras, se você se incomoda o problema é seu. É perda de tempo se incomodar com isso. Seria algo a se preocupar, sem sombra de dúvidas, como eu já disse, se você conversasse com você mesmo achando que está conversando com outra pessoa.

- Mas toda a ideia desse tipo de conversa não é tentar parecer que se está conversando com outra pessoa? Digo, você pergunta para si mesmo uma coisa para logo depois responder como se fosse outra pessoa, certo?

- Seria estupidez perguntar uma coisa para si mesmo esperando que você respondesse a pergunta que acabou de fazer.

- Mas não é essa a intenção? Responder como outra pessoa?

- Para ser bastante sincero com você, eu não faço a mínima ideia. Acho que é porque não me incomodo. Acho comum. É como engolir alguma coisa. Você não engole de jeitos diferentes. Apenas engole.

- Eu engulo água de um jeito completamente diferente do jeito que engulo, sei lá, um pedaço de carne.

- Ok. É diferente. Eu queria era exemplificar a mecânica da coisa. Você só engole, entende?

- Hum.

- Respirar, então. Excluindo todas as vezes que você precisou de mais oxigênio…

- Como depois de correr atrás de um ônibus?

- … é. Como depois de correr atrás de um ônibus. Excluindo todas essas vezes, você respira mecanicamente. É como eu converso comigo mesmo: mecanicamente.

- Não sei. Não sei. Acho que conversar assim não é algo que possa ser mecânico. Fico incomodado ao fazer isso. Não vejo a situação um dia se tornando mecânica como respirar. Não consigo me ver não me incomodando com isso.

- Por que você se incomoda tanto?

- É complicado. Não sei dizer ao certo.

- Como se algo fosse muito simples de se dizer ao certo.

- Eu quero coisas, entende? Não. Na verdade eu não quero coisas. Não o tempo todo. Às vezes quero um livro. Outras quero um filme ou um pedaço de chocolate. Mais livros do que filmes e mais filmes do que chocolate. Mas não quero coisas, entende? É difícil explicar.

- Você gosta mais de filmes do que chocolate. E gosta muito mais de livros do que gosta de filmes. Qual a complicação?

- Você é que está simplificando. Não é a questão do gostar, mas a frequência do querer. Eu sempre me pego conversando, ou melhor: sempre me pego pedindo a Deus que algo aconteça. Às vezes pedindo que algo não aconteça. Mas o engraçado é que a satisfação que tenho quando essas súplicas são atendidas não é diferente. Tanto para o acontecer quanto para o não acontecer, a satisfação que sinto é a mesma.

- Mas o que isso tem a ver com você conversar consigo mesmo?

- Sei lá. Acho que não é Deus, entende? Sou eu falando pra mim mesmo, repetindo e repetindo o que gostaria ou não que acontecesse.

- Tipo "Deus, eu quero chocolate"?

- Não. É mais para "Por favor. Faça com que isso alguma coisa". Ou "Que ela não alguma coisa". Entende?

- Hum.

- Hum?

- Muita gente faz isso, sabia? Principalmente aos Domingos pela manhã.

- E quantas delas conseguem? Porque eu realmente não me lembro das vezes que fiz isso e não fui atendido.

- Ok. Deixa eu ver se entendi. Você pede coisas a Deus. É atendido em todas as coisas que pede e se sente extremamente incomodado por isso? Oras. Você pode pedir para Ele não atender de vez em quando, já que Ele sempre atende.

- Você está caçoando.

- Não, não. Eu estaria caçoando se engrossase a voz dizendo: "Bem. Não é Deeeeeus, Deus. Sou apenas eu repetindo coisas que gostaria que acontecessem e que não acontecessem. E eu sou muito bem atendido. Epa! Tenho a leve impressão que sou, tipo, Deus."

- Você está caçoando.

- Não seja idiota. É comum isso.

- Incomodo-me. Talvez até por ser algo comum. Algo corriqueiro e que não posso explicar.

- "No princípio era o Acaso, e o Acaso estava com Deus, e o Acaso era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas pelo Acaso, e sem ele nada do que foi feito se fez. No Acaso estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

- Você acabou de inventar isso.

- Nâo. É um livro. De verdade. Quer que eu te empreste?

- É, pode ser. Eu gosto de livros. Mais do que gosto de filmes. E gosto de filmes mais do que gosto de chocolate.

grifo 15

Os viajantes agora voltaram sua atenção para a viagem; o sol estava à sua frente e ofuscava seus olhos todos cheios de lágrimas. Gimli chorou abertamente.

— Olhei pela última vez para aquela que era a mais bela — disse ele a Legolas, seu companheiro. — Daqui para frente, não chamarei nada de belo, a não ser o presente que ela me deu. — Colocou a mão no peito. — Diga-me, Legolas, por que vim nesta Demanda? Mal sabia onde o maior perigo estava. Elrond estava certo quando disse que não podíamos prever o que poderíamos encontrar em nosso caminho. O tormento no escuro era o perigo que eu temia, e esse perigo não me demoveu. Mas eu não teria vindo, se soubesse do perigo da luz e da alegria. Agora, com esta despedida, sofri meu maior ferimento, e não poderia haver pior nem mesmo que eu tivesse de ir nesta noite, diretamente ao encontro do Senhor do Escuro. Pobre Gimli, filho de Glóin!

— Não — disse Legolas. — Pobres todos nós! E todos os que caminham pelo mundo nestes últimos tempos. Pois assim são os modos deste mundo: encontrar e perder, como parece àqueles cujo barco está na correnteza veloz. Mas considero você um abençoado, Gimli, filho de Glóin: pois sua perda você sofre de livre e espontânea vontade, e poderia ter escolhido outro caminho. Mas não abandonou seus companheiros, e a menor recompensa que poderá ter é que a memória de Lothlórien permanecera sempre viva e imaculada em seu coração, e não vai se apagar nem envelhecer.

j.r.r tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 14

— E que presente um anão pediria aos elfos? — perguntou Galadriel, voltando-se para Gimli.

— Nenhum, Senhora — respondeu Gimli. — A mim basta ter visto a Senhora dos Galadhrim, e ter ouvido suas gentis palavras.

— Escutem vocês todos, elfos — exclamou ela para aqueles à sua volta. — Não deixem ninguém dizer que os anões são ávidos e indelicados! Mesmo assim, com certeza Gimli, filho de Glóin, você deseja algo que eu possa ofertar. Revele seu desejo, eu lhe peço! Você não deve ser o único convidado a ficar sem um presente.

— Não quero nada, Senhora Galadriel — disse Gimli, fazendo uma grande reverência e gaguejando. — Nada, a não ser que talvez… a não ser que seja permitido pedir, não, desejar um único fio de seu cabelo, que ultrapassa o ouro da terra como as estrelas ultrapassam as gemas da mina. Não peço tal presente, mas a Senhora me ordenou que revelasse meu desejo.

Os elfos se agitaram e murmuraram atônitos, e Celeborn observou o anão admirado, mas a Senhora sorriu.

— Diz-se que o talento dos anões está em suas mãos e não em suas línguas — disse ela. — Mas não se pode dizer o mesmo de Gimli. Pois ninguém jamais me fez um pedido tão ousado, e ao mesmo tempo tão cortês. E como posso negá-lo, já que fui eu quem ordenou que ele falasse? Mas, diga-me, o que você faria com um presente desses?

— Guardá-lo-ia como uma relíquia, Senhora — respondeu ele —, em memória das palavras que me disse em nosso primeiro encontro. E se eu algum dia retornar às forjas de minha terra, será colocado num cristal indestrutível, para ser a herança de minha casa e um testemunho de boa vontade entre a Montanha e a Floresta até o fim dos dias.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 13

Imediatamente, embora tudo continuasse como antes, escuro e sombrio, as figuras se tornaram terrivelmente claras. Frodo podia ver através de suas roupas pretas. Havia cinco figuras altas: duas em pé, na saliência do valezinho, três avançando. Nos seus rostos brancos brilhavam olhos agudos e impiedosos; sob as capas havia grandes túnicas cinzentas; sobre os cabelos cinzentos, elmos de prata; nas mãos magras, espadas de aço. Seus olhos caíram sobre ele e o penetraram enquanto corriam na sua direção. Desesperado, Frodo puxou sua espada, tendo a impressão de que dela emanava um brilho vermelho, como se estivesse em brasa. Duas das figuras pararam. A terceira era maior que as outras: o cabelo era longo e brilhante, e sobre seu elmo estava uma coroa. Numa mão segurava uma longa espada, e na outra uma faca; tanto a faca quanto a mão que a segurava brilhavam com uma luz fraca. Ele pulou para frente e avançou sobre Frodo.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 12

Gildor ficou em silêncio por um momento. — Não gosto dessa notícia — disse ele finalmente. — O atraso de Gandalf não é um bom presságio. Mas dizem por aí: Não se meta nas coisas dos magos, pois eles são sensíveis e ficam facilmente irritados. A escolha é sua: ir ou esperar.

— E também dizem por aí: Não peça conselhos aos elfos, pois eles dirão ao mesmo tempo não e sim.

— É mesmo? — riu Gildor. — Os elfos raramente dão conselhos imprudentes, pois o conselho é uma dádiva perigosa, mesmo dos sábios para os sábios, e tudo pode dar errado. Mas e você? Se não me contou sobre tudo o que o preocupa, como posso fazer uma escolha melhor que a sua? Mas se quer um conselho, vou dá-lo em nome de nossa amizade. Acho que deve partir imediatamente, sem demora; e se Gandalf não chegar antes de sua partida, então também aconselho o seguinte: não vá sozinho. Leve amigos, que sejam confiáveis e prestativos. Agora, deve me agradecer, pois não dou este conselho com tranqüilidade. Os elfos têm suas próprias dores e seus próprios labores, e não se preocupam muito com os assuntos dos hobbits, ou de qualquer outra criatura sobre a terra. Nossos caminhos se cruzam raramente, por acaso ou de propósito. Neste nosso encontro, pode haver algo mais que o acaso; mas o propósito não está claro para mim, e temo falar demais.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 11

Então o líder, que já tinha atravessado o Vau até a metade, levantou-se nos estribos, ameaçador, e ergueu a mão. Frodo foi tomado por uma espécie de adormecimento. Sentia a língua aderindo à boca, e o coração batendo com dificuldade. Sua espada quebrou e caiu da mão trêmula. O cavalo élfico empinou, bufando. O cavalo negro que vinha à frente já tinha quase saído da água.

Naquele momento, houve um trovão e um estrondo: um ruído enorme de águas fazendo rolar muitas pedras. Com a visão embaçada, Frodo conseguiu distinguir o movimento do rio embaixo dele se levantando, e descendo seu curso veio uma cavalaria emplumada de ondas brancas. Parecia a Frodo que chamas brancas piscavam nas cristas das ondas, e ele imaginou enxergar no meio da água cavaleiros brancos sobre cavalos brancos, com crinas espumantes. Os três Cavaleiros que ainda estavam na água sucumbiram: desapareceram, subitamente cobertos pela espuma furiosa. Os que estavam atrás recuaram, com medo.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 10

Frodo hesitou por um momento: a curiosidade ou algum outro sentimento lutava contra seu desejo de se esconder. O som de cascos se aproximou. Bem na hora, ele se jogou numa moita alta atrás de uma árvore que cobria a estrada de sombra. Então levantou a cabeça e espiou cuidadosamente por cima de uma das raízes grandes.

Pela curva vinha um cavalo negro, não um pônei de hobbit, mas um cavalo grande: montado por um homem grande, que parecia abaixado na sela, envolto numa grande capa e num capuz preto, de modo que só se viam as botas nos estribos altos. O rosto, coberto por uma sombra, era invisível. Quando chegou à árvore onde estava Frodo, o cavalo parou. A figura do cavaleiro permanecia imóvel com a cabeça abaixada, como que tentando escutar algo. De dentro do capuz veio um ruído, como se alguém tentasse farejar um cheiro indefinível; a cabeça se virava para os dois lados da estrada.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel